O “estilo Ghibli” e o “Kardec artificial”, por Manoel Fernandes Neto

Tempo de leitura: 6 minutos

Por Manoel Fernandes Neto

Por ser divertido, todos queriam virar animação Ghibli. Como tudo o que existe na internet, a reflexão para alguns veio depois: “Peraí, o que é isso? Imitar um estilo e ficar por isso mesmo? Plágio? E os direitos autorais?” 

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A Inteligência Artificial (IA) segue impulsionando diversos tipos de debates na sociedade. Dessa vez, o motivo foi a atualização do Chat GPT, que trouxe novos desafios relacionados a vários aspectos em face dos conteúdos gerados pela IA na arte: substituição da mão de obra humana, furto de estilos, ocorrência de plágios e desrespeito a direitos autorais, entre outros. 

O hype do momento foi a trend que teve a participação de milhares de contas nas redes sociais, em que foram publicadas fotos pessoais modificadas por imagens geradas pela IA, no mesmo estilo artístico (emulação) do consagrado Studio Ghibli. O estúdio em questão é o responsável por animações cinematográficas de sucesso, como os vencedores do Oscar “A Viagem de Chihiro” e “O Menino e a Garça”.

Primeiro, é oportuno fazer alguns esclarecimentos acerca de termos atuais, circunstância que não pode faltar em um texto de um jornalista com mais de 60 anos. “Hype” significa “entusiasmo e euforia” ou simplesmente o “que está na moda” ou, como diz minha filha, a “treta do dia”. No caso de “trend”, simboliza algo que está em voga, com todas as contas nas redes postando a mesma coisa: respondendo uma pergunta em determinado formato ou promovendo uma simples ação de conteúdo; as “trends” podem gerar milhares de posts na mesma direção; por fim, emulação é imitação, simulação — ou simples cópia — feita pela IA.

“Estilo se copia?”

A trend no “estilo Ghibli” viralizou nas principais redes sociais, do Instagram ao X, trazendo  “animes” (estilo japonês de desenho animado) aplicado em fotos de famílias, grupos, casais, pets, pessoas da empresa, times de futebol e políticos. Por ser divertido, todos queriam virar animação Ghibli. Como tudo o que existe na internet, a reflexão para alguns veio depois: “Peraí, o que é isso? Imitar um estilo e ficar por isso mesmo? Plágio? E os direitos autorais?” 

Profissionais de diversos setores apontaram caminhos para o debate. No aspecto político, a deputada estadual do Rio de Janeiro, Elika Takimoto, gravou um vídeo [1] contundente, em que expressa, entre outras coisas, acerca dos aspectos trabalhistas do assunto: “Em um sistema capitalista, um gerador de arte por inteligência artificial está usurpando trabalhadores artistas de sua força de produção”, afirmou. 

Mas também foi tratado o aspecto jurídico: o jornalista Pedro Doria, no artigo “A Inteligência Artificial faz arte?”, no “O Globo” [2], ele levantou a tese de que a nova funcionalidade de imitar um estilo deve levar a questão à Suprema Corte dos Estados Unidos, para responder a pergunta: copiar estilo é plágio? No texto, ele não se aprofunda nesse olhar e não aborda, por exemplo, que estilo é algo inerente à arte. Na música, você tem o estilo sertanejo, MPB, Pop e ninguém copia ninguém. Isso se repete em diversos tipos de arte. Outro exemplo é o cinema, com escolas bem definidas. O caso Ghibli e a IA é um outro debate. 

Essa indignação da IA no lugar de um artista é antiga. A trend resgatou uma primeira declaração sobre o assunto do fundador do Studio Ghibli, Hayao Miyazaki, de 84 anos. No “longínquo” ano de 2016, ele reafirmou sua indignação se dizendo “totalmente enojado” ao ver a demonstração de um vídeo criado com inteligência artificial. “Sinto fortemente que isso é um insulto à própria vida” [3].

O referido estúdio é um exemplo de arte raiz, autêntica. Reúne profissionais gabaritados que produzem filmes em método tradicional, em 2D, “feitos à mão”, quadro a quadro. Utiliza um ritmo que choca os tempos atuais, em que a velocidade é transformada em lucro, numa pressa injustificada, quando se trata de arte. No caso atual da trend, Hayao Miyazaki não se manifestou.

A falsa democratização da criação

Fazer arte é um atributo humano, impossível de ser substituído, por mais avançado que seja o “aprendizado da máquina”. A IA, na forma atual, versão após versão, em pleno desenvolvimento, sem regulamentação, ludibria as pessoas com a falsa promessa de que neófitos podem criar arte. No entanto, isso não quer dizer que em muitos casos a IA não possa servir ao próprio artista em alguma atividade em série, mas isso nada tem a ver com o assunto em questão.

A IA está avançada em várias áreas da economia e da sociedade; podemos citar eventos climáticos, agricultura, saúde, sistema financeiro. Possui conquistas de destaque, inclusive salvando vidas [4]. Se, hoje, acabasse seu desenvolvimento, já teria efetuado uma revolução. Mas, em paralelo a essas conquistas, segue confundido e usurpando diversos setores. Acima de tudo,  é um grande instrumento do capital, porque está nas mãos do capital. 

A mencionada matéria do G1 [3] mostrou que as críticas são muitas em setores artísticos. Atores, cineastas e músicos acusam a OpenAI — empresa criadora do Chat GPT — de atuar para “enfraquecer ou eliminar” proteções de direitos autorais para treinamentos de sistemas de IA. Pasmem, a empresa admite que o uso da “estética de terceiros” é algo em que atua e diz ter colocado uma barreira para o robô não criar esse tipo de imagem. 

Lógico, — e a empresa se contradiz e confunde — tem uma exceção em casos como o do Studio Ghibli.  “Continuamos a evitar gerações no estilo de artistas vivos individuais, mas permitimos estilos de estúdio mais amplos – que as pessoas usaram para gerar e compartilhar algumas criações originais de fãs verdadeiramente encantadoras e inspiradas” disse a OpenAI ao G1.

Quem se importa?

Na seara espírita, já temos um debate avançado sobre o assunto IA — com a linha editorial do coletivo espírita “Espiritismo COM Kardec” e do portal ECK atenta em relação aos abusos que podem ser inseridos nos chamados estudos espíritas com a ferramenta. 

Perguntas para o Chat GPT sem qualquer checagem, livros escritos totalmente por uma IA, organização de aulas e palestras sem a identificação e a avaliação das chamadas “alucinações” [5] são exemplos de situações que já estão ocorrendo, lamentavelmente, na ambiência espírita. Inevitável imaginar que cenas como estas irão se repetir na grande ambiência espírita do país, atingindo os mais recônditos recantos. No aconchego de sua mesa de trabalho, na frente do notebook, o palestrante ou o monitor de estudos espíritas utilizando a IA sem resistir à sua rapidez em responder questões; montando os slides de apresentações criados “automaticamente”; ou, ainda, gerando roteiros “instantâneos” de aulas. Tudo isto sem o devido conhecimento, reflexão e checagem. Semelhante ao “estilo Ghibli”, estas rotinas simulam a Doutrina dos Espíritos em uma desanimadora concepção associada a um “Kardec artificial”.

De forma geral, as pessoas seguem fazendo suas imagens em novos estilos, com aquelas fotos antigas da família, de sua viagem, de seu almoço, de seu trabalho. As pessoas também prosseguem participando de trends da IA, como se “não houvesse amanhã”. Agem sem se importarem se, em algum momento, seu trabalho vier a ser substituído por um robô, quando talvez sejam obrigadas a dizer, meio que resignadas: “Maravilha, é o futuro não é mesmo?”.

No tocante à arte, também o Espiritismo com ela se preocupa e Kardec, lá na segunda metade do Século XIX, também anteviu, no diálogo com os Espíritos [6], que ela se submeteria ao progresso, aproximando-se de uma arte espiritual, transcendental. E, logicamente, uma arte mais aperfeiçoada não seria feita com pressa ou precipitação. Seria uma arte humana e, é claro, poderia utilizar recursos derivados da IA, mas sem, jamais, substituir o espírito criativo humano, isto é, dos Espíritos

Sim, nesse futuro breve, se tudo continuar sem as necessárias mudanças éticas, aquele museu já não trará mais somente os quadros e esculturas de grandes artistas, mas simulações realizadas por IAs treinadas para isso. Ou teremos estádios lotados com um show de holografia de um avatar que emula o estilo de seu cantor favorito; ou mesmo filas quilométricas do teatro ou do cinema que estejam exibindo filmes, roteiros, esquetes, em cenas de novos atores e atrizes gerados artificialmente. 

A propósito, para prosseguir o debate, matéria de “O Globo” [7] alerta para o risco do uso de dados das pessoas que acessam sistemas que solicitam fotos de seus usuários. Mas esse é um tema para outro post.  

Notas do Autor:

[1] Vídeo de Elika Takimoto, disponível em: <LINK>. Acesso em 2 de abril de 2025.

[2] Artigo de Pedro Dória, disponível em: <LINK>. Acesso em 2 de abril de 2025.

[3] Texto da Redação G1, disponível em: <LINK>. Acesso em 2 de abril de 2025.

[4] “Os médicos deixaram um homem doente morrer, mas a IA salvou sua vida”, Reportagem de Chris Smith. Título original: “Doctors left a sick man for dead, but then AI saved his life”, disponível em: <LINK>. Acesso em 2 de abril de 2025.

[5] Alucinação de IA é um termo que se refere a resultados imprecisos ou enganosos gerados por modelos de inteligência artificial (IA). 

[6] A dissertação é assinada pelo Espírito Alfred de Musset, poeta, novelista e dramaturgo francês (1810-87), atendendo questionamento de Kardec, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 23 de novembro de 1860. O texto consta do fascículo de dezembro de 1860, da “Revue Spirite”, intitulado “Arte pagã, arte cristã, arte espírita”. 

[7] Matéria do O Globo, disponível em: <LINK>. Acesso em 2 de abril de 2025.

Foto: A Viagem de Chihiro (Foto: Divulgação/Studio Ghibli)

 

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Postagem efetuada por membro do Conselho Editorial do ECK.

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