Por Sonia Zaghetto
O que fazer quando o nosso mundo se quebra em mil pedaços? Como sobreviver quando o que se perdeu não pode ser revertido ou consertado?
A vida nos adverte a cada instante sobre a precariedade de nosso controle. E, ainda assim, persistimos. Fazemos seguros, evitamos alimentos ultraprocessados, marcamos check-ups, planejamos férias com um ano de antecedência — como se estivéssemos em negociação constante com o destino. Como se o mero esforço bastasse.
***
Mas o terremoto chega sem convite. A placa de gelo cede sem alarde.
Você adormece. E ao despertar, as notícias sangram: um acidente, um diagnóstico, um adeus inesperado. Você esperava uma ligação à tarde, mas recebe outra às seis da manhã. Caminha numa calçada qualquer, e o universo, em impassível silêncio, desfaz os nós daquilo que julgava seguro.
Sabemos que resistir a certas forças é inútil, mas tentamos. Erguemo-nos a cada manhã com o automatismo dos que acreditam em uma ordem secreta, um sentido oculto capaz de justificar o caos. Mas se há um propósito, ele não nos pertence. Se há uma lógica, ela não se revela.
Uma palavra japonesa – shoganai – é bastante útil nos caminhos tortuosos do viver. Traduzida ao pé da letra, quer dizer: “não há o que fazer”, “não tem jeito” ou “é inevitável”. Mas seu alcance vai muito além da mera resignação. Bem compreendida, converte-se em resiliência e coragem.
Pensei em shoganai quando, ao terminar de assistir à série Adolescência, eu me encontrei refletindo sobre a nossa impotência e falta de controle sobre a vida, o próprio corpo, o destino dos filhos. Lembrei, com um certo amargor, do tempo — eu era tão jovem — em que acreditava que uma vida boa seria o resultado lógico de escolhas bem feitas. Quase uma equação. Um caminho escorado em decisões racionais, pedra sobre pedra, como quem constrói casa sobre rocha firme. Bastaria, julgava eu, escolher uma profissão lucrativa, um parceiro honesto, a escola certa para os filhos, um plano de aposentadoria.
Plantava árvores no quintal com a convicção tranquila de que haveria tempo de colher seus frutos. Então veio a vida — direta, implacável — e me disse, sem cerimônia, que não se curvaria às minhas intenções.
Vieram filhos, fortes ventos, afetos e perdas. Veio o corpo que habito, a revelar-se finito, frágil, silenciosamente rebelde à minha vontade. E com ele, a certeza única que nos resta: a morte, sempre adiante, paciente e pontual.
Os filhos que criamos não nos pertencem. Damos-lhes nomes, sonhos, cuidados, moldando os contornos de um futuro imaginado. Mas eles partem — e por vezes seguem caminhos que jamais poderíamos ter previsto. Não há garantias de segurança ou de sucesso. Nem de honestidade ou de não-violência.
São raros, se é que existem, pais e mães sem arrependimentos. A maior parte de nós, mesmo tendo amado profundamente, carrega uma agulha de culpa: e se eu tivesse feito isto ou aquilo? E se eu tivesse tomado outra decisão?
Shoganai…
Podemos lutar em vão contra o passado — cerrar os punhos, gritar contra os ventos — ou podemos aceitar. Aceitar não é desistir. É escolher com sabedoria quando empunhar a espada e quando a depor. Enxergar a linha tênue, quase invisível, entre bravura e rendição.
É nesse espaço que shoganai emerge, como advertência ancestral: um convite a acolher a impermanência, a compreender que sofrimento extra brota do apego e da resistência ao fluxo natural da vida. Shoganai não é desistência — é lucidez. É deixar ir o que não podemos reter.
É não carregar culpa pelo que não se pôde evitar, nem tentar aprisionar a vida numa forma que pareça segura.
Aceitar que somos sombra em um breve intervalo no mundo.
E, ainda assim, sorrir meio desajeitados. Continuar é preciso.
Sentir a brisa na pele e deixar que ela nos leve, sem exigir sentido onde ele não existe.
É viver no presente, com os pés fincados no instante que nos foi dado. Tudo o que temos é este pequeno e precioso instante. Nele buscamos um afago, o calor de um café recém-passado, o conforto de um bolo amanteigado, uma flor teimosa brotando entre pedras, o riso espontâneo de quem amamos.
É nas coisas miúdas, quase invisíveis, que a vida revela seu valor.
E talvez seja um alívio, enfim, deixar cair a máscara do controle e admitir que não comandamos o mar — apenas navegamos.
(Texto: Sonia Zaghetto. Pintura: The Blind Girl (A Garota Cega), de John Everett Millais)
Fragmentos de lucidez e caos
Não houve aviso.
Eu tinha planejado a semana. Risoto para o jantar. Comprei legumes, paguei a conta de luz, organizei a pasta dos documentos.
Esquecemos uma cadeira pegando chuva no quintal. Ela ainda estava lá.
Eu achava que sabia o que era uma vida boa.
Isso foi antes.
Depois, aprendi que o amor nem sempre consegue proteger. Que escolhas certas não impedem tragédias. Que o corpo trai. Que os filhos podem matar, ser mortos. Ou escolher morrer.
Quão frágeis somos.
Aceitar não é fácil. A aceitação não vem com palavras suaves. Chega com um silêncio viscoso; com a ausência de passos no corredor, depois do enterro.
Vem com o risoto que ninguém come.
Vem com o saber que tudo o que fizemos — todos os planos, os papéis assinados, as escolas escolhidas — não garante nada.
Não, isso não é pessimismo. Nem conformismo.
É só o que é.
(Texto: Sonia Zaghetto. Crédito obrigatório)
A garota cega – história da pintura
A pintura que ilustra este texto captura o próprio espírito de shoganai. The Blind Girl (A Garota Cega) é uma tela de John Everett Millais que retrata duas mendigas itinerantes. A mais velha é uma musicista cega, com um pequeno acordeon no colo. Elas estão descansando à beira da estrada após uma tempestade. É uma alegoria dos sentidos, contrastando as experiências das irmãs. A menina cega sente o calor do sol no rosto e acaricia uma folha de grama; uma borboleta repousa sobre o seu xale, sugerindo que ela está completamente imóvel, quase em êxtase. A segunda garota protege os olhos do sol e olha para um arco-íris duplo no horizonte. O que ela vê também nos encanta: o deslumbrante cenário pós-chuva.
Quando exibiu a pintura pela primeira vez, em 1856, Millais soube que, nos arco-íris duplos, o interno inverte a ordem das cores. Perfeccionista, refez a pintura, pois havia posto as cores na mesma ordem em ambos os arco-íris. Preferiu alterar a arte a fim de seguir a precisão científica.
Shoganai
Shoganai é uma daquelas palavras que revelam muito sobre a alma de um povo. É profundamente belo e até terapêutico o gesto de aceitar com serenidade o que não se pode mudar, sem deixar de agir quando possível. Há uma sabedoria nisso: admitir o inevitável nos liberta da luta inútil e da angústia que consome sem produzir qualquer resultado positivo.
Shoganai expressa resignação diante de uma situação difícil, particularmente quando as circunstâncias estão fora de controle. Embora a expressão possa ser usada em situações cotidianas, ela é preferencialmente utilizada quando ocorrem grandes tragédias, mortes, terremotos e tsunamis.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a palavra foi muito repetida pelos japoneses para expressar a resignação diante do sofrimento e das perdas, inclusive no bombardeio de Hiroshima e Nagasaki. Também foi a palavra usada por muitos japoneses-americanos forçados a viver em campos de internamento nos Estados Unidos (escrevi sobre este triste episódio histórico aqui): “Shoganai,” repetiam, tentando lidar com a injustiça sem perder a dignidade e o autocontrole.
É uma lição de humildade diante da vida — algo que, em tempos de ansiedade e excesso de controle, talvez estejamos precisando reaprender.
Por que Adolescência nos perturba?
Este texto contém spoilers.
Um menino de treze anos, de rosto doce e olhar assustado, é acusado de matar uma colega de escola. A série Adolescência, que narra esse drama, tornou-se a mais assistida do mundo — não apenas por sua qualidade impecável, mas porque expôs feridas que fingíamos não ver.
Não vou entrar nos detalhes técnicos da produção esmerada, do elenco afiado e da direção segura. Muitos já escreveram sobre isso.
O que me interessa neste texto é a comoção causada por uma obra de arte. Tenho cá as minhas teses.
A primeira delas se refere à escolha do ator para protagonizar Jamie Miller. O estreante Owen Cooper não é o que a nossa mente condicionada espera de um acusado de assassinato. Ele é franzino, com um jeito ainda infantil, responde educadamente às perguntas dos policiais, chora, tem medo de agulha e urina de medo. Ele é o retrato vivo do sobrinho que amamos, do filho do amigo e da nossa própria criança que dias antes lambuzava a cara de sorvete e brincava no parquinho.
Eis porque tantos se frustraram por não ter ocorrido nenhuma reviravolta de última hora; um milagre que provasse a inocência de Jamie. É uma projeção da esperança que temos quando os nossos meninos se envolvem em situações chocantes, particularmente crimes. Não pode ser verdade, repetimos, agarrados a impossibilidades. A negação é nosso escudo.
Não criamos filhos para matarem e serem mortos. Quando eles surgem no mundo, trazem consigo promessas de alegria. A natureza os reveste de um ar adorável e de uma vulnerabilidade que nos inclina a protegê-los. Filhotinhos – de cães, de gatos, de humanos – têm essa propriedade de nos despertar os instintos de proteção. A cabeça proporcionalmente grande em relação ao corpo, os olhos maiores, o nariz e a boca pequenos, as bochechas arredondadas e os movimentos descoordenados ativam um mecanismo instintivo de cuidado nos adultos, inclusive entre membros de outras espécies (note como reagimos à visão e até vídeos dos filhotes de animais). Jamie é exatamente assim. Até o episódio três, em que já vemos a transição entre a criança que foi e o adolescente que é, nós desejamos protegê-lo daquilo que “só pode ser equívoco”.
Mas talvez o que mais nos choca, além da figura frágil de Jamie, seja o espelho que a série nos estende: ele revela a ausência de atenção e de comunicação intrafamiliar. Por comodismo ou medo de confrontar, acomodamo-nos a olhar de longe os filhos se aproximarem do mundo adulto, com suas linguagens novas, códigos secretos e o aparato deste universo bruto e desconhecido que criamos e nutrimos nos últimos anos.
Sair da infância sempre representou entrar em um imenso e desafiador mundo novo, mas até então os pais e avós tinham noção do terreno. Hoje, não mais. Todos estamos adentrando juntos o território áspero de internet, celulares e redes sociais. E ele é rude e desconhecido. Se de um lado é profundamente sedutor, de outro é campo fértil para todas as sementes da violência. O problema é que não desvendamos tudo isso juntos, como família e sociedade. Cada um está trancado em sua própria tela.
Antes disso, encontramos desculpas para não educá-los apropriadamente, hesitamos em dizer “não” aos seus caprichos, trememos diante da possibilidade (absurda) de eles não mais nos amarem porque impusemos limites. São tolices da nossa insegurança.
As falhas que cometemos nos pesam nos ombros e são múltiplas. Suas razões também são várias. Em Adolescência, por exemplo, o pai de Jamie – espancado quando criança – jurou que seria diferente com ele. É uma promessa muito comum que nos fazemos: “Comigo será diferente”. E a corda da viola, que antes julgávamos muito apertada, torna-se frouxa demais. Pois – como se repete incessantemente – não há fórmulas. No fundo, tateamos sem rumo, tentando acertar. Às vezes funciona; outras vezes resulta em desastre. É como uma daquelas maldições antigas: temos medo de errar e assim mesmo erramos. Falha trágica do herói, diriam os velhos gregos.
Só muito tempo depois da tragédia nos culpamos pelo abandono involuntário daqueles que juramos proteger. É cômodo acreditar que os filhos estão protegidos nos seus quartos. Esquecemos que celulares e computadores são janelas para o abismo. Os monstros entram nos quartos mesmo com portas e janelas fechadas.
A chamada à responsabilidade e a explosão emocional chegam juntas no capítulo final. Neste, a esperança também se mostra na imagem da filha a dizer: “Jamie é nosso”. O mesmo útero que trouxe ao mundo um assassino também carregou a menina que ampara os pais.
Filhos podem ser epifania ou cruz pesada. O caminho que trilhamos com eles é feito de vidro fino. Qualquer pisada em falso pode terminar em susto, queda ou morte. Há de se estudar o terreno, pisar com cuidado, analisar a rota.
Eles estarão conosco até o fim da jornada comum.
E mesmo que um dia se afastem, deslizem, ou se quebrem, continuarão sendo nossos.
Fragile – Frágil
No final do segundo episódio de Adolescência, na Netflix, uma voz feminina canta “Fragile”(Frágil), de Sting. O cantor britânico escreveu a canção em resposta ao assassinato de Benjamin Linder, que fazia trabalho voluntário na Nicarágua e foi morto pelos Contras em 1987. É uma canção sobre a violência e a fragilidade da vida. Quase uma oração.
Ben Linder era um jovem engenheiro norte-americano, pacifista e idealista, que trabalhava em projetos de energia hidrelétrica em comunidades remotas e pobres da Nicarágua. Na época, o governo sandinista, havia chegado ao poder após a derrubada da ditadura de Somoza, apoiada por décadas pelos EUA.
Mas os Estados Unidos, na época presididos por Ronald Reagan, consideravam o governo sandinista uma ameaça comunista e passaram, por intermédio da CIA, a apoiar, treinar e financiar uma força paramilitar de oposição, os Contras — um conjunto de grupos armados que praticava ataques e sabotagens no interior da Nicarágua, frequentemente com brutalidade extrema.
Ben Linder foi emboscado e morto a tiros pelos Contras enquanto trabalhava em uma usina hidrelétrica na zona rural. Ele tinha 27 anos. O episódio causou comoção e dividiu a sociedade norte-americana na época. O apoio americano aos grupos armados desaguou em um dos maiores escândalos do segundo governo Reagan: o Caso Irã-Contras.
A letra de Fragile, em inglês e português, está após o vídeo.
FRAGILE (Sting)
If blood will flow, when flesh and steel are one
Drying in the color of the evening sun
Tomorrow’s rain will wash the stains away
But something in our minds will always stay
Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime’s argument
That nothing comes from violence, and nothing ever could.
To all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star
Like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are
How fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star
Like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are
How fragile we are
How fragile we are
How fragile we are
FRÁGIL
Se o sangue há de correr, quando carne e aço se tornam um
Secando na cor do sol poente
A chuva de amanhã lavará as manchas
Mas algo em nossa mente sempre ficará
Talvez esse ato final tenha sido feito
Para selar o argumento de uma vida inteira:
Que nada vem da violência, e nada jamais virá.
A todos aqueles nascidos sob uma estrela furiosa,
Para que não esqueçamos o quão frágeis somos.
E a chuva cairá sem cessar
Como lágrimas de uma estrela
Como lágrimas de uma estrela
E sem cessar a chuva dirá
O quão frágeis somos
O quão frágeis somos
E a chuva cairá sem cessar
Como lágrimas de uma estrela
Como lágrimas de uma estrela
E sem cessar a chuva dirá
O quão frágeis somos
O quão frágeis somos
O quão frágeis somos
O quão frágeis somos
Imagem divulgação da série Adolescência
Blog da autora
https://soniazaghetto.com/